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Prometo ser, até que a morte venha.



Ir com a maré, ou ser Maria-vai-com-as-outras. São expressões que ouvia muito quando criança. E faz todo o sentido pra mim, hoje.
Comprar o que todo mundo estava comprando, ouvir aquele cantor ou cantora que todo mundo estava ouvindo, cantar na igreja as músicas que as outras meninas gostavam, e que nem ficava tão bonita na minha voz. Vestir as roupas que as pessoas do meu círculo social estavam vestindo. Mudar meu penteado. Tentar achar um namorado, ou alguém de quem gostar por que as minhas amigas tinham namorados e isso era o melhor assunto pra se falar. 
Fazer exatamente o que todos faziam.
É… eu fiz muito isso, e devo dizer que, uma vez e outra, me pego aceitando e fazendo de novo. E relembro daquele gosto azedo de quem engolia a própria voz, ou sentia a ausência dela.
Um dia, eu era só uma garota do interior, com um palavrado diferente, com um convívio diferente e sob o olhar das pessoas, eu fui mudando aquela garota, insisti em moldá-la por muitos e muitos anos, e isso não foi nada legal…. Afinal, só Deus sabe o quanto demorou pra eu juntar os pedaços e tardiamente fazer a bendita pergunta: Quem eu realmente sou?
Agora que penso com mais clareza sobre momentos passados, percebo o quão sem graça eu era, e o medo que eu tinha, de ir lá e fazer o que eu realmente gostaria de fazer. 
De passar por cima daquelas malditas palavras deles, dos sorrisos cruéis, e desfrutar a vida, com satisfação, como tinha que ser. 
Deixei por muito tempo, o meu tempo, a minha criatividade, a minha identidade ser roubada por gente, que na maior parte do tempo, eu mal conhecia. E alguns que julgavam me conhecer e até previam o meu futuro.
Não sei se posso resolver as coisas comigo mesma falando sobre isso, mas sei que posso ser feliz aprendendo com os erros, que estavam tão disfarçados como se fosse uma vida, a minha vida um tanto confusa. 
Percebo hoje, que gosto das mesmas coisas de muito antes, e me sinto feliz com a simplicidade dos detalhes que um dia, tão inocentemente, olhei, observei e apreciei, sozinha. 
Um Antes, de deixar todo aquele medo me aprisionar no tempo. Antes, dos outros personagens tomarem o meu espaço na narrativa.
Aí, Eu me dei conta que tenho uma história tão deliciosa e tão a minha cara, e eu gosto de contá-la, sabe… aos pedaços, até por que, ela vai tomando caminhos novos a cada momento. E fazer o quê? Eu deixo. É tão bom me ver crescer.
Eu tenho um passado só meu, tenho uns segredos que foram esquecidos no meu diário, e algumas coisas que eu mesma construí, que amei silenciosamente, e que a beleza, que somente eu conseguia enxergar, é que me trouxe. 
Olho para as minhas mãos tão mal cuidadas, elas construíram muitas pontes. E daí se ninguém se deu conta?
Então sorrio pra mim mesma, um sorriso diferente, com gosto e com tranquilidade. Voltei ao hábito de Conversar com o meu reflexo no espelho, sei lá, é divertido.
Ao tempo em que a claridade da luz que vem da janela, pela manhã, me faz ver um brilho novo no meu olhar.
Pergunto-me: Quem sou eu?
Respondo: Eu sou, somente aquela que posso ser. Nada grandioso, apenas eu. Isso me basta. Eu sou um detalhe importante. Estou no meu tempo, no meu momento, e de sobra… eu tenho fé.

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